então
combinamos de fazer mil coisas, era evidente que daria tudo tão certo, era tão
bonito, tínhamos uma espécie de telepatia, pensávamos as mesmas coisas,
compartilhávamos a mesma visão de mundo, de tudo. no começo ficamos assustados,
ninguém viu como aconteceu e era demais, enorme, tudo muito forte, tudo
incontrolável, tão certo, tão bonito. fizemos todos os pequenos planos, planos
de amorzinho, planos de viver o trivial. ele exercia sobre mim um fascínio
enorme, eu ficava hipnotizada, leve, parva, encantada. esqueci o resto do
mundo, era só ele, ele, ele. eu achava que isso nunca mais aconteceria,
igualzinho à primeira vez.
mas
ele tinha medo, ele era um menino que acreditava ter uma vasta experiência na
vida e no sofrimento, como todo menino acredita. eu dizia que ele precisava
viver, que precisava se arriscar, que o que vale na vida é o sangue correndo
nas veias. aos poucos ele foi se entregando pra mim sem notar e foram os meses
mais lindos dessa vida, mesmo com toda a juventude e a insegurança e o medo e a
fragilidade que nunca cediam. eu achava chegaria o momento em que ele
conseguiria se ver como realmente é, único, raro, genial, o melhor.
ele
não me deixava ir e não conseguia vir. nunca. uma vez. duas. três. sempre havia
alguma coisa errada. fiquei inquieta. aquilo me consumia. precisava dele.
queria precisar dele. ele precisava de mim também. era quase um vício inevitável,
só crescia e tomava conta de tudo.
eu
precisava que fosse real.
fiquei
doente. ele também.
ele
não vinha nunca. nunca. nunca.
aí
ele ficou triste. se afastou. senti que ele ia embora. tentei impedir. não
consegui.
ele
nunca veio.
ele
não conseguiu ver futuro comigo, ele não conseguiu ver nada. escolheu ficar com
uma lá que firmava os pés dele no chão. no chão eu não sei ficar, sempre disse
que só cai quem voa.
voei
e me estabaquei.
foi
tão perto, tão pertinho, tão quase.
ele
não conseguiu tentar.
ficamos
sem romance, sem começo e sem ponto final
Autora: Clara Averbuck
OBS* Mais informações, entre no site www.claraaverbuck.com.br

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